sábado, 5 de maio de 2012

E Naomi não viajou...

Parecia uma corrida de obstáculos... Eram roupas espalhadas pela cama. Livros abertos, sapatos jogados... - Uma zona! Era a sua primeira afirmação do dia. - Quem pode ...pode! Pensava ela ao ver seu lindo santuário. Um aquário bagunçado era o seu quarto. - Por onde começo? Indaga aflita a pobre. Nobre era aquela cena... Tentava declarar uma guerra que já estava perdida. - Ao perdedor à vassoura! Suspirava. Os sapatos se recusaram a ajudar, as roupas nem sequer deram uma mãozinha. - Só me restaram os livros? Ela se assusta. - Prefiro os sapatos! Exclamou. Era um encanto, uma dança aquela caça aos calçados. Um balé desordenado, mas de fino trato. O impossível era achar cada par. - Estou destinada a solidão! Se olhando no porta-retratos. - Pensar nele agora já é demais! Joga o sapato no chão. - GerlaaaaaneeeCrissstiiinaaaaa, Você já arrumou seu quarto? Parecia ouvir uma alucinação, mas era a sua mãe que já dissera mais de três vezes que não via na filha nenhuma ação. Na mesma hora pensou em responder, achou melhor esconder os sapatos. - Você só saí daí com esse quarto arrumado, ouviu mocinha? Aquilo já era demais, há quase cinco anos morando só e ainda ouvia os mesmos trololós. - O jeito é a terapia! Sorria ela olhando para os livros. - Parece que estão vivos! Com medo e num só ímpeto escolhe as roupas. A armadura escolhida estava mais para trouxas. Separava tudo... Primeiro guardava as de sair, aquelas pilhas eram as suas preferidas. - Estou tão organizada! Falava satisfeita. Nem reparava que algumas roupas precisavam de acabamento, não se importava. Juntou tudo num montão e jogou dentro do guarda-roupa. Ao abrir não quis nem olhar, teve tanto medo que joga tudo lá. - Se eu for pensar em arrumar, nunca vou descansar. Fecha a porta com força. Se sentiu estranha, desolada. - Será que vai ser sempre assim? Pega um vestido encarnado que esqueceu em cima da cama.
 
- Como queria ser modelo! Deu um suspiro involuntário abraçando-se com o indumento. Naquele momento, pensou: - Vou ligar para ele! Lembrou-se do primeiro encontro que teve com o vestido, foi o maior presente de sua vida. Procura disparadamente o número que tinha anotado com muito gosto, muito amor. De repente para, uma vaga lembrança vem à tona: - Eu coloquei no livro de Literatura! Um medo se instaurou no quarto. Decidiu força a mente. - Folhear aquele livro seria um ato indecente. Disse ela desesperada. - A solução é arrumar a cama! Inquieta ela estava. Enquanto dobrava os lençóis, olhava-se no espelho e perguntava-se: - Como eles vieram parar aqui? Trocou olhares com os livros abertos. Ela preferia conviver com as baratas, ao tocar naqueles livros. - Eram dele. Cai uma lágrima de seu rosto. Lembrou que quandose foi a chamou de superficial. Desde aquele dia convivia com aquela herança intocada, aberta. Eterna ferida que não cessa. Ficou sem palavras e começou a chorar... Com raiva diz: - Superficial é o ca... Pega um livro. - Não o sei o que tem de tanto importante aqui. Folheia o livro. Passam páginas, imagens, títulos, palavras... Finalmente observa uma frase que diz: -“A conquista da liberdade é algo que faz tanta poeira, que por medo da bagunça, preferimos, normalmente, optar pela arrumação." Ela observa atentamente as palavras, mas nada a impressiona. Fecha aquele livro e pega um que estava debaixo da cabeceira da cama aberto como se convidasse ela. Passam páginas, imagens, títulos e palavras... Dessa vez ela fecha o livro e abre numa determinada página. - Eu finalmente te encontrei. Numa mistura de sorrisos e lágrimas vê a foto dele pregada na página e abaixo da foto uma frase que dizia: - "O amor é grande e cabe nesta janela sobre o mar. O mar é grande e cabe na cama e no colchão de amar. O amor é grande e cabe no breve espaço de beijar." Ela toca na foto, sente uma enorme dor no peito. Pensa em ligar, já que nos folheios finalmente se lembra do número. Desiste. - Desisto. Fecha o livro. Agora mais nada existe. O resto é a televisão, ver os programas de moda para acalentar o coração. Gerlane se fincou. Naomi sempre sonhou. E Naomi não viajou...

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